Campanha por Justiça a Ana Clara

Assista ao episódio

Niterói, 2 de fevereiro de 2021

Ana Clara Gomes Machado tinha 5 anos. Tinha acabado de acordar e estava na porta de casa quando levou dois tiros. O policial acusado de atirar nunca foi a júri e é defendido pelo Flávio Bolsonaro. Hoje ele está solto.

Ana Clara sorrindo num balanço de parquinho, de blusa rosa e cabelo cacheado.
Ana Clara. Foto da família exibida no episódio. © Revelando

Tempo sem julgamento

5 anos 8 meses 19 dias

Próxima data informada à família: 5 de maio de 2027. Só em 2026, o júri já foi adiado duas vezes.

Ana Clara de pé num parquinho, de macacão estampado com corações, sorrindo. Ana Clara bem pequena, sorrindo de perto para a câmera.
Fotos do álbum da família, exibidas no episódio. © Revelando

Quem era Ana Clara

Cabelo cacheado, carinha redonda e mania de imitar a mãe.

Cristiane Gomes da Silva teve Ana Clara aos 15 anos. Ela diz que foi a filha quem a ensinou a ser mãe: a ter paciência, a trocar fralda, a crescer junto.

Ana Clara queria fazer tudo o que a mãe fazia. Também já tinha planos. Queria ser médica.

“Mamãe, eu vou cuidar de crianças.”

Ana Clara, segundo a mãe, Cristiane

A manhã de 2 de fevereiro

“Foi em questão de segundos.”

Era cedo e a família tinha acabado de levantar. Uma equipe da Polícia Militar subiu pela escada da rua onde eles moravam. Dois rapazes estavam sentados ali. Cristiane conta que ouviu um deles gritar “é morador” e, logo depois, quatro tiros.

Quando ela olhou para trás, viu o filho de 2 anos agarrado nela e não viu Ana Clara. Achou que a filha tinha entrado em casa. Não tinha. Ana Clara estava caída no chão, atingida por dois tiros.

Um morador que estava perto contou depois que os policiais só socorreram a menina depois de muita insistência dos vizinhos. Segundo ele, os PMs ainda tentaram mexer na cena.

Foto antiga da família: Ana Clara deitada numa cama, rindo, ao lado do irmão pequeno de chupeta.
Ana Clara e o irmão. Ele tinha 2 anos e viu tudo. Até hoje repete: “o polícia veio na irmã”. © Revelando

O que a perícia encontrou

A versão do confronto não se sustenta no chão.

O que diz o acusado

O cabo Bruno Dias Delaroli afirma que houve confronto. Segundo ele, cinco homens apareceram perto da casa e dois atiraram de pistola.

O que a perícia registrou

7,62 mm

Os peritos da Polícia Civil chegaram pouco depois, com a PM ainda no local. Só recolheram munição de calibre 7,62, o mesmo do fuzil que Delaroli carregava. De pistola, não acharam nenhuma.

Delaroli foi o único preso em flagrante. Em novembro de 2021 a Justiça o soltou para que respondesse ao processo em liberdade até o julgamento. Esse julgamento ainda não aconteceu.

O processo

Toda vez que o júri chega perto, aparece um recurso.

  1. Quatro anos antes de Ana Clara, Delaroli já tinha sido acusado de outro homicídio: um homem morto com um tiro pelas costas. Em 2018 a Justiça mandou esse caso a júri. Depois, ele foi arquivado.

  2. Ana Clara é morta na porta de casa, em Niterói. Delaroli é preso em flagrante.

  3. A Justiça solta Delaroli. Ele passa a responder pela morte de Ana Clara em liberdade.

  4. A Justiça do Rio decide que o caso vai a júri popular. A defesa recorre ao Superior Tribunal de Justiça para anular a decisão e perde.

  5. Logo depois dessa derrota, um nome novo aparece no processo. O senador Flávio Bolsonaro assina um recurso ao STJ pedindo para reverter a decisão que mandou Delaroli a júri.

  6. A defesa segue apresentando recursos. O júri é marcado e adiado duas vezes no mesmo ano.

  7. É a próxima data que informaram à família. Até lá, terão passado mais de seis anos.

Quem assina a defesa

O senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato a presidente.

Todo acusado tem direito à defesa, inclusive quem é acusado de matar uma criança. Isso a gente não discute.

Só que a defesa de Delaroli tem algo que quase nenhum acusado tem: a assinatura de um senador da República. Flávio Bolsonaro não é defensor público e já recebe salário de senador. Ninguém o obrigava a pegar esse caso.

Cristiane não sabia que o senador estava no processo. Quando descobriu, levou um susto.

“Ele sendo pai de uma menina, podia tentar se colocar no meu lugar de mãe. E se fosse a filha dele?”

Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara
Camila Pitanga escuta, atenta, durante a conversa com Cristiane, mãe de Ana Clara.
Camila Pitanga conversa com Cristiane, mãe de Ana Clara. © Revelando

Isso não é lentidão

No Rio, policiais acusados de matar quase nunca chegam ao fim de um júri.

629

chacinas cometidas por policiais no Rio entre 2007 e 2022

2

viraram denúncia

0

das 27 maiores, com oito mortos ou mais, tiveram o julgamento concluído

Muita gente cresceu achando que a Justiça do Rio é lenta e pronto. O caso de Ana Clara mostra outra coisa: existe gente com nome e poder trabalhando para que o dia do julgamento não chegue. E o nome do senador aparece em outras histórias parecidas.

Adriano da Nóbrega

Em 2005, dezesseis anos antes da morte de Ana Clara, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro deu a maior honraria da Assembleia do Rio a esse tenente do Bope. Adriano não foi à cerimônia porque estava preso, acusado de matar o guardador de carros Leandro dos Santos Silva, de 24 anos. Segundo a corregedoria da PM, os policiais mudaram a cena para simular um confronto. Ele foi condenado pelo júri e absolvido na segunda instância.

Anos depois, Adriano passou a ser apontado como chefe do Escritório do Crime. A mulher dele trabalhou 11 anos no gabinete de Flávio, e a mãe dele, dois anos e meio. As duas só saíram um mês depois de ele ser eleito senador. Adriano fugiu e foi morto numa operação policial na Bahia, com dois tiros, sem nunca ter contado o que sabia.

Juíza Patrícia Acioli

Em Niterói, ela mandava policiais acusados de homicídio a júri popular. Em agosto de 2011 foi morta com 21 tiros quando chegava em casa. Logo depois do enterro, Flávio escreveu na internet que a forma como ela tratava policiais nas sessões tinha contribuído para ela ter muitos inimigos.

Marielle Franco

A vereadora foi assassinada em março de 2018, junto com o motorista Anderson Gomes. A delação apontou o ex-PM Robson Calixto, o Peixe, como quem apresentou os executores aos mandantes. Em outubro de 2023, o Peixe pediu a uma secretária parlamentar a ajuda do “nosso senador”. No mês seguinte, uma emenda de Flávio destinou quase R$ 200 mil a um projeto de futebol infantil na Taquara. Uma investigação apontou desvio do dinheiro.

Fatos relatados no episódio “Revelando”, com base em reportagens, documentos e registros públicos citados nos créditos do vídeo.

Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, de cabelo cacheado e camiseta branca, fala com um meio sorriso.
Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara. © Revelando

Cristiane, a mãe

“Ela tem nome.”

Cristiane se incomoda quando a filha vira só “a menina de cinco anos morta em Niterói”. Ela pede que todo mundo diga o nome. A dor dela está no que não vai acontecer: os 15 anos da filha, o primeiro dia de escola, a filha crescendo.

O que ela mais teme hoje é o acusado nunca sentar no banco dos réus.

“Eu não quero vingança. Eu só quero que a justiça seja feita.”

Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara

Ela quer que o filho cresça sabendo que quem matou a irmã dele respondeu pelo que fez. Para isso, o primeiro passo é o júri acontecer.

Cristiane chora enquanto fala sobre justiça para a filha.
“Eu só quero que a justiça seja feita.” © Revelando

Assista e compartilhe

Ouça a história contada por Cristiane, a mãe de Ana Clara.

Fontes

De onde vêm as informações

Esta página se baseia no episódio “O julgamento que nunca aconteceu”, da série Revelando, apresentado por Camila Pitanga e lançado em 30 de setembro de 2026. Os dados do processo também foram publicados nestas reportagens:

Segundo essas reportagens, o recurso assinado por Flávio Bolsonaro no STJ, em 2024, foi negado. Bruno Dias Delaroli nega que o tiro tenha saído da arma dele e diz que atirou contra traficantes armados. Quem vai decidir se ele é culpado é o Tribunal do Júri.